Brendan Martin

Nada na minha infância poderia dar a entender que eu me tornaria um economista e empreendedor radical, doando a maior parte do meu dinheiro para financiar cooperativas de trabalhadores na Argentina, Nicarágua e Estados Unidos. Como uma criança que cresceu em um subúrbio de Rochester, Nova Iorque, eu não estava ciente da pobreza e desigualdade ou tinha conhecimento de que o sistema em que vivemos era algo a ser reconsiderado e possivelmente transformado.

Doar radicalmente e interessado em economias alternativas não são valores herdados da minha família. Talvez a semente tenha sido plantada após o divórcio dos meus pais. Minha mãe retornou ao mercado de trabalho como uma mulher no começo dos seus 50 anos e encontrou apenas salários baixos.

Eu vi o quanto a insegurança financeira tinha influência sobre ela, via a  quantidade de stress que ela sofria para poder dar aos seus filhos uma vida boa com uma renda baixa. Aquilo era muito doloroso. Meu pai continuou na sua ascensão no mundo coorporativo, e eventualmente gerenciou um negócio de tecnologia, o que o tornou rico. Enquanto eu o visitava em Hong King, eu vi miséria pela primeira vez. Parecia errado que algumas pessoas trabalhassem tanto e tivessem tão pouco enquanto outras viviam vidas de privilégios e lazer.

Eu tive a minha primeira aula de economia no colegial em uma escola privada de elite que meu pai pagou, onde nós lemos The Worldly Philosophers do escritor Heilbroner, um livro que apresenta a economia como uma invenção ao invés de um conjunto de leis naturais. A medida que estudava economia, mais eu pensava que as corporações viam os trabalhadores como custos a serem minimizados e depois eliminados. Se as economias são criadas por pessoas, por que não podemos melhora-las para que consigam servir melhor as necessidades das pessoas e não pensar apenas nos lucros?

Depois da faculdade, eu consegui um trabalho como gerente geral em uma firma de informação e Wall Street e aprendi sobre recursos humanos do ponto de vista de um chefe. Eu descobri que eu era bom em gerenciar e planejar. Eu ganhava um bom salario e gostava de Nova Iorque, mas eu nunca perdi meu interesse em fazer experimentos com a economia. Então em novembro de 2004, eu assisti um documentário que mudou a minha vida. The Take de Avi Lewis and Naomi Klein. O filme conta a estória de trabalhadores ganhando o controle sobre fábricas na Argentina. Essa era a oportunidade que eu buscava. Eu estava tão inspirado pelo filme que eu falei com Avi para que ele mesmo me levasse a Argentina e me mostrasse as fábricas.

Após conhecer os trabalhadores e registrar suas histórias com um time da Argentina, eu imediatamente vi oportunidades para melhorar as coisas e fazer empréstimos para negócios do meu próprio bolso. Cinco mil dólares podem fazer uma enorme diferença para uma cooperativa que batalha na Argentina.

Continuando remotamente com o meu trabalho em Wall Street, eu decidi não esperar que o dinheiro viesse de fora, e então resolvi doar todas as minhas economias e a maior parte da minha renda para The Working World, uma fundo de empréstimo rotativo sem fins lucrativos que eu criei para apoiar as cooperativas incipientes.

O trabalho exigia muito mas também era muito gratificante. Não era o doar dinheiro e sim investir em uma infraestrutura que as pessoas pudessem usar para construir seus próprios meios de ganhar dinheiro.

Eu poderia ter comprado um carro caro ou um apartamento enorme, mas foi infinitamente mais satisfatório construir um sistema financeiro onde os trabalhadores podem começar e construir seu próprio negócio de sucesso.

Construir coisas novas como cooperativas ou instituições financeiras alternativas é extremamente difícil, mas se você não desistir, eventualmente o que é só uma ideia pode se tornar realidade.

E esse trabalho acabou sendo a melhor coisa que eu já fiz na vida.

Minha família, especialmente meu pai, não entendia porque eu estava doando tanto dinheiro e assumindo tantos riscos nessa aventura. Ironicamente, meu pai começou a dar dinheiro para mim e meus irmãos na mesma época. Ele decidiu colocar quase um milhão de dólares para cada um de nós em um fundo de investimento bem sofisticado, e logo perdeu 60% com a crise em 2009.

A taxa de reembolso de empréstimos na The Working World é de 98%. Com esse clima era difícil concordar que ser radical era algo arriscado. Agora, após oito com a The Working World, minha família me apoia muito, e meu pai até ajudou a contribuir para o seu sucesso.

Eu não sou motivado pela caridade. Um dos trabalhadores me perguntou “ Você está aqui para nos ajudar?” e eu respondi “Não, eu estou aqui porque o que vocês estão fazendo na Argentina pode ajudar a mudar o mundo.” Eu vejo isso como um caminho para experimentar com inovação em como podemos melhorar a nossa economia. Uma vez eu me convenci de que a maioria das cooperativas poderiam ser bem sucedidas se elas tivessem acesso ao suporte financeiro. Eu decidi expandir o modelo para Nicarágua e então para os Estados Unidos.

Eu estou atualmente levantando dinheiro para Ner Era Windows, uma fábrica de janelas em Chicago que tem lutado por anos com péssimos gerentes.

Nós temos feito uma campanha de relações púbicas para forçar os proprietários a negociarem com a gente e estamos perto de fechar o nosso objetivo para investimento inicial. Os riscos são maiores nos Estados Unidos, mas se nós tivermos sucesso, New Era pode mudar o nosso jeito de pensar em opções que são válidas para nossa economia nos Estados Unidos.

A minha visão é criar em larga escala, um financiamento confiável para a economia democrática dentro dos Estados Unidos, e ajudar a seguir a direção que valoriza mais as pessoas do que os lucros.

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